Domingo, Março 29, 2009

Músicas

Lendo o Blog de um comandante (que vocês podem acessar, nos links ai do lado, onde está escrito Flight Level 390), provavelmente da US Airways (não tenho certeza), aonde ele menciona cantar mentalmente musicas do Ted Nugent em seções de simulador...

Mas é interessante isso, porque raramente conhecemos pessoas que nunca tiveram uma musica passando em suas cabeças enquanto o dia/momento vai seguindo.

Lembro do dia que finalizei o meu curso de piloto privado, estava saindo do aeroclube, olhei aquele Cessna C150G que me aturou por 41 horas, me ensinando a voar, a respeitar o vôo... Lembro-me bem de imaginar escutando Johnny Cash fazendo cover de Further up on the Road, do Bruce Springsteen.
No fim do meu primeiro vôo de instrução, lembro de parar olhando para o mesmo Cessninha, e pensando em Learning to Fly, do Pink Floyd.
Durante uma navegação, viajei cantando mentalmente Time, também do Pink Floyd.
Agora, talvez a música que mais me marcou pelo fato de eu ter lembrado ela, no final do meu primeiro vôo solo, era a música tema do Metal Gear Solid. Para ser exato, a música Metal Gear Saga do MGS4. Lembro de mal escutar alguma coisa, lembro de após ter pousado começar tocar a parte final da música.

Por fim, lembro que estava longe de casa nesses dias, longe dos meus amigos, longe de tudo que eu conhecia, correndo atrás do meu sonho. Talvez muita gente tivesse desistido, mas eu fui atrás. Posso estar redondamente enganado, mas eu sei o que eu fiz, as experiências que queria ter compartilhado com muitos, apenas restam algumas palavras, da qual posso compartilhar pessoalmente um dia, escrevendo em alguma folha de papel velha.

Você lembra algum momento até hoje em que você acabou escutando mentalmente uma música que você não se esquece até hoje, ou que completavam, para você, aquele momento? Principalmente quando estamos distante do "mundo conhecido" do cotidiano, essas músicas ajudam a manter o "moral".
Outras músicas sim tocavam na minha cabeça enquanto estava voando, ou fazendo algo mais, mas poucas ficaram marcadas, essas eu me lembro bem

Terça-feira, Março 03, 2009

De heróis a vilões: A épica batalha para não estragar tudo

Seria exatamente assim que qualquer piloto resumiria a sua profissão.

Somos todos metódicos, seguimos procedimentos básicos, ensinados desde a primeira hora de vôo até aos grandes jatos de passageiros que voam a mais de 10km de altitude e a mais de 800km/h. 
Aprendemos a verificar o avião antes de todo vôo, a reconhecer seus ruídos, suas nuancias, aprendemos a lidar com situações criticas e corriqueiras, em ambientes simulados ou simulações práticas.
Olhamos as nuvens através de radares, e mesmo assim, não desafiamos a sua força.
Disputamos cada centimetro, cada metro, com passaros, que diferente de nós, aprenderam muito antes a voar de forma graciosa e perfeita, enquanto somos doutrinados desde o primeiro contato com o avião a evitarmos tragédias, ou de ser cumplice de uma.
Somos egoístas, não pensamos no valor da carga, ou das vidas que carregamos. Pensamos em nós, em fazer de tudo, ao máximo, para que não só a nossa vida acabe, mas a de todos que depositam suas vidas em nossas mãos (alguns com mais fé, outros esperando o pior).

Vimos em um mês, o maior exemplo que a doutrina de vôo faz quando o pior acontece na mão de uma pessa experiente, focada em evitar o pior. Foi uma jogada de mestre, uma tripulação que fez todos os tripulantes sentirem orgulho daquilo que fazem, por alguém ter sido o herói, por ter tomado as decisões certas a tempo de evitar a catastrofe.
Quantos não estariam pintando aquele piloto de vilão se ele não tivesse sido bem sucedido na hora de efetuar o seu trabalho?

Na aviação, não existe meio termo. Ou somos heróis (anônimos em sua maioria), ou como diria Harvey Dent "Vivemos o bastante para nos tornar-mos vilões".

Sábado, Fevereiro 07, 2009

Vôo solo

1810 inicio a inspeção pré-vôo. Nível do óleo em 4.5/4 Galões (~4,25L). Abastecimento de 35L em cada asa, totalizando 70L, o que nos da uma autonomia de 02h45minh.
Cabine preparada para o vôo, altímetro ajustado, Bateria ligada, Magnetos ligados, Mistura enriquecida, seletora aberta, bombeado combustível na linha... Área da hélice desobstruída... Partida.
Pressão do óleo subindo normal, temperatura em aquecimento. – Máster ligado, primer travado, seletora aberta e motor em 1000rpm para aquecimento.

Iniciamos o taxi, e sou brifado que será efetuado apenas o treinamento de TGL, que no dia seria efetuado pela cabeceira 23 do aeródromo, o que necessitaria de uma atenção redobrada, já que pelo horário, a posição do astro rei em relação à pista poderia atrapalhar os arredondamentos. Nada de mais, só não estragar tudo.

Check de magnetos, mistura e aquecimento do carburador efetuados e normais, taxi até a cabeceira iniciado. Devido o circuito para pouso é não padrão, fizemos uma curva pela esquerda para alinharmos, assim seria possível visualizar qualquer trafego no circuito de trafego para pouso.
Alinhado, freio aplicado, transponder em ALT, farol de pouso aceso e manete a toda - 2500rpm, pressão do óleo e temperatura normais. Freio solto, corrida iniciada. Leve correção de pedal para direita a fim de contrabalancear o torque da hélice. Velocímetro vivo – 55mph – Rotação! Razão positiva mantém atitude para subida, 65mph, reduz o motor para 2500rpm, aplica levemente o freio... Cruzou a cabeceira, farol desligado e mantendo o eixo da decolagem.

Três toques e arremetidas efetuados corretamente, estamos adentrando no quarto. O astro rei já não incomoda no arredondamento, ele desceu um pouco, e agora não tenho mais desculpa para errar. Passamos pelo través da cabeceira, farol de pouso, potencia reduzida para 1700rpm, flap 10º e atitude para manter 70mph... Mantendo visual com a cabeceira da pista até que... Ela fica coberta pelo desenho da porta. É esse o momento de ingressar na perna base. Curva para direita, calçadinha básica para contrabalancear o torque... Flap 20º e segurando 65mph e sem desvios do perfil da aproximação. A 45º de referencia com o nariz do avião inicio uma suave curva pela direita para ingressarmos na final sem embarrigar. BINGO! Bem no alvo, pista alinhada, vento calmíssimo, flap 30º e mantendo 60mph. Mirando na cabeceira para um toque curto para não prejudicar a arremetida. Pouco antes de cruzar a cabeceira, motor em Power off e mantém atitude, iniciando arredondamento... Mantendo o eixo com o pedal... No solo.
Nessa hora o instrutor fala “para, para tudo! Para...”. Nossa, lembro até agora dos meus pensamentos: “o que eu fiz de errado?” “Caramba, se eu errei eu me chuto agora mesmo”... Aeronave parada, instrutor abre a porta e fala: “Ta na hora de você voar sozinho. Não errou nenhum dos pousos, a pilotagem está certa, em caso de pane você sabe se virar... só não estraga seu pouso viu? Faz um circuito e volta para o batismo ok?”. E ele sai e fecha a porta. “Como assim é minha hora de voar sozinho?!” pensava, mas a adrenalina subiu, agora não tinha retorno. Ou ia ou ia. Relaxei, eu sabia o que fazer, era só relaxar. Flaps em 10°, potencia aplicada, velocímetro vivo... 55mph já?! Subindo a 75mph? Reduz o motor para 2500rpm, aplica freio, desliga o farol, e ele continua subindo a mais de 500fpm!? Nem parecia que tinha 100hp o avião... Passou 300ft antes mesmo de o meu cérebro chegar a tal altitude... Flap recolhido, é hora de passar na frente do avião. Check de área, atitude de subida, 65mph e nada de instrutor. Surreal, curva para a direita, leve calçada para evitar a derrapada pelo torque... e subindo. Na metade da perna do vento já estava nivelado e com potencia de cruzeiro... Às vezes eu nem conseguia chegar a 1000ft da pista... Fonia feita, parecia que estava solo nos céu também... Ninguém na fonia, ninguém reportando nada... Passo pelo través da cabeceira, farol de pouso, potencia reduzida para 1700rpm, flap 10º e atitude para manter 70mph... Agora estava robótico... Não ia nada dar errado, nem o vento estava atrapalhando... Perna base, flap 20º... Final, flap 30º e é hora de fazer bonito... Venho para o arredondamento de forma suave, eu tinha energia e estava leve. Venho mantendo a atitude, a buzina de pré-estol avisa que ele quer pousar, mas ela está errada, já estamos no solo, só o trem de nariz está em cima... Alivio o manche, aplico freio, e livro a pista... Flaps recolhidos, transponder desligado e farol desligado. Fonia de pista livre, e começa a parte surreal. Ainda não havia caído a ficha, mas havia voado solo. “Quero mais!!!” dizia o meu cérebro... Aeronave pronta para parar...
Freioaplicado
Potencia1000 RPM
Rádio, Transponder e luzes Desligados
SeletoraFechada
Misturacortada
Após o motor se silenciar – Magnetos e máster desligados

Não deixaram nem eu calçar a aeronave, é hora do batismo do manicaca que vôo sozinho, e o churrasco para os famintos do aeroclube se esbaldarem!

“Quero mais” eu pensava... Quero mais...



ps: As postagens estão sendo contadas do fim ao inicio.

Sexta-feira, Janeiro 30, 2009

Navegação

Era uma segunda-feira. 26 graus no termômetro, céu encoberto a quase 5000ft, e um leve vento vindo do sudoeste...

Seria o primeiro vôo do dia, então inspeção redobrada para não tomar sustos.
Combustível drenado, sem contaminantes.
Nível óleo em 5/4 de galão (~4.7 l).
Checagem do sistema de freio, sem vazamentos.
Toda documentação necessária para o vôo a bordo.

Dada a partida, atenção especial para a pressão do óleo. Tudo normal, a pressão subiu normalmente. O motor está saudável e pronto para trabalhar.

Iniciamos o taxi até o ponto de espera, para a checagem final antes da decolagem.
Comandos livres e correspondentes – Checado
Flaps – Livres e simétricos, setados em 10º.
Compensador – Checado
Altímetro – Ajustado
Velocímetro – Zerado
Climb e turn coordinator – Aspecto normal
Combustível – 90L (03h30minh de autonomia).

Iniciamos o nosso taxi para a decolagem. Em função do vento, iríamos já decolar e já sair na proa prevista para o nosso destino: Araçatuba. No ponto de espera, aplico a potencia, que sobre rapidamente para 2500rpm e estabiliza, assim como a pressão do óleo e temperatura permanecem normais. Velocímetro vivo, atingindo 50mph, Rotação! Saímos do solo, aplico levemente o freio para as rodas pararem de girar, asas niveladas, nariz encarando o vento, ajustada a RPM de subida e mantendo 65mph!

Em menos de 10 minutos atingimos incríveis 4500ft (ou FL045), que foi a nossa altitude de cruzeiro nessa etapa. De imediato após o nivelamento, iniciamos o procedimento de redução de mistura, para ter um desempenho ótimo dos 100hps que nosso motor nos oferecia. Transcorridos 30 minutos após a decolagem, já conseguimos ver as margens do rio Tietê, o vento de cauda está nos ajudando, mas ainda teríamos 40 minutos de vôo pela frente de acordo com os nossos cálculos pré-vôo.
Sobre o rio Tietê, conseguimos ter contato visual com o aeroporto de Araçatuba, muito bem cuidado e localizado de forma “perfeita” para a aviação. Sem obstáculos, apenas um tapete de plantações que eu não conseguia distinguir de que eram. A vista era única, assim como acompanhar a uma distancia segura a aproximação de um ATR da pantanal que efetuava um vôo para tal localidade, vindo de Bauru.

Após passarmos pela vertical do aeroporto, descemos para 3500 pés e retornamos para a nossa base de operações. Gastamos exatos 50 minutos de vôo! Exatos 20 minutos a frente do planejado, o que significava uma coisa – Vento de proa no retorno!
Mantemos 3500ft durante todo o retorno, e a 15 nm de distancia da nossa base, já era possível ver com perfeição a pista de 1500m que estava bem alinhada com nosso nariz. Em coordenação com as demais aeronaves em instrução no aeródromo, fomos informados que o vento havia mudado, e estávamos bem na longínqua final para pouso, afastados quase que 10 minutos do nosso destino.

Já na longa final, iniciamos a preparação para o pouso. Velocidade para manter a rampa – 70mph com flaps a 10°, 65mph com flaps a 25° e 60mph para flaps a 30° e 40°.

Iniciamos a descida para permanecermos na rampa ideal, mistura – rica, deixamos o aquecimento do carburador por 2 minutos para prevenir formação de gelo e susto a baixa altura. 1000ft do solo – reduz potencia, farol ligado – 1700rpm e gerenciando a velocidade com a atitude, flaps 10°, mantendo 70mph, passando 600ft do solo, flap 20° e redução para 65 mph, a 300ft do solo, com certeza de atingir a pista caso o pior nos acometa, flap 30°, asa para o vento, pedal contrário para alinhamento... 100ft – 50ft – motor em marcha lenta, arredondamento e... Pousamos!

Após livrarmos a pista, desligamos o farol, transponder e recolhemos os flaps – Missão cumprida.

Rádio desligados, seletora fechada, mistura cortada e o motor se silencia após 02h10min de vôo. Magnetos e máster desligados! Aeronave calçada e tubo de pitot coberto. Verificamos o nível do combustível para abastecimento – 13L na asa direita e 15L na asa esquerda. 28L no total, o que nos dava ainda 1 hora de autonomia caso precisássemos.

Aeronave repassada para o colega que ia voar, e mais um vôo efetuado!

Quinta-feira, Janeiro 29, 2009

Vôo de Check

Sentia-me antes do meu primeiro vôo.

Estava nervoso, ansioso, medo de errar tudo que eu treinei nas últimas 40 horas de vôo que eu tanto me dediquei a aprender.

Inspeção pré-vôo – realizada.
Documentação da aeronave – Abordo e conferida.
Abastecimento – 30L de AVGAS 100LL em cada asa, totalizando 60L e autonomia real 2:45h

Aeronave parada, checks efetuados, partida...

E estamos prontos para iniciar o taxi com o motor já em aquecimento...

Mal começamos a andar e toda aquela ansiedade começou a passar, estava confiante, tinha refeito o vôo no mínimo umas 30x na noite anterior, sabia que nada poderia dar errado...

Alinhados na cabeceira, aeronave pronta para decolar, potencia em 2500RPM, liberando todos 100hp do motor continental, pressão do óleo e temperaturas no arco verde, o motor estava saudável, mas pronto para ir para a uma revisão simples...

Velocímetro vivo.... 50mph – rotação... asas niveladas, encarando o vento de través pela esquerda... razão positiva, freio aplicado e subindo para 4500ft enquanto nos afastávamos pelo setor NW do aeródromo...

Estóis, coordenações, simulação de pane, e por fim, 360 e 180 sobre o aeródromo... último pouso foi tão gostoso, ciência do dever cumprido.

Livramos a pista, iniciamos os checks pré-corte de motor...

Parados, o avião se silencia. Um sorriso enche meu rosto, eu sabia que havia completado o exame de forma satisfatória...

O checkador me olha, e fala “Meus parabéns Gustavo, você passou. Sucesso e que venham mais checks pela frente”. Apertamos as mãos.

Saio da aeronave, calço a mesma e cubro o tubo de pitot. Impecável. Agora, só resta a saudade dos vôos no meu querido C150G que tanto me ensinou e tanto me perdoou no começo.

Enfim, piloto privado. Próxima parada: Piloto Comercial